Notícias do dia

A espreita

Lucília Gago reduziu o cargo de procuradora-geral da República a uma sinecura protocolar, irrelevante, inútil A ministra de turno na justiça em 2018, Francisca Van Dunem, escolheu uma magistrada de peso para procuradora-geral da República: Lucília Gago tinha o peso da experiência, uma vida vaga rosa e sossegada ao serviço do Ministério Público nos juízos cíveis, de tal maneira frugal que o Presidente da República aceitou sem reservas a proposta do Governo.

Lucília Gago fez-se de leve, tão leve como uma pluma que nem se dá por ela. Reservou-se o papel de uma figura protocolar, decorativa, irrelevante – um jarrão dispensável. A magistratura do Ministério Público, concebida com uma estrutura hierárquica, está em roda livre: é um monstro de várias cabeças que devia ter apenas uma – a da procuradora-geral. Os procuradores fazem o que lhes apetece sem critério nem regra: promovem detenções com base em incertezas – “proclamações”, como ainda agora lhes chamou o Tribunal da Relação – e acusam a partir de indícios que não chegam a ser provas. Quem manda no Ministério Público é o sindicato dos magistrados, não é a procuradora-geral da República.

O transporte de uma centena de inspetores da Polícia Judiciária a bordo de um avião da Força Aérea, para buscas e detenções no Funchal, foi severamente criticado por dois ex-procu-&n radores-gerais. Cunha Rodrigues e Souto de Moura. Mas o que se passou a seguir é pior. Os detidos , – era tanta a papelada,IIty tantos os indícios, tão feérico o espetáculo – só ao fim de uma semana na prisão / conheceram o que o juiz de >:íov instrução tinha para lhes dizer.

Os procuradores, afinal, apresentaram um saco de provas cheio de coisa nenhuma. Absolutamente nada. Como acontecerá, de resto, na ‘Operação Influencer’. O Governo caiu. Mas onde os procuradores tinham visto sérios indícios de crimes gravíssimos, o Tribunal da Relação não viu mais do que “suposições” e “proclamações” delirantes.

Lucília Gago reduziu o cargo a um jarrão inútil – um jarrão desnecessário à República, mas de grande utilidade para a própria: a sinecura permite-lhe arredonda r a pensão ao jubilar-se, já no próximo mês de outubro, quando terminar o mandato…

António Salvador

Tinha de ser iusébio

Depois da prisão… o cachimbo da paz Ao fim de mais de uma hora de detenção, num cubículo escuro, lá entrou um militar (j e começou a copiar os nomes dos passaportes para um caderno escolar.

Os passaportes, os tele móveis, duas máquinas fotográficas e uma credencial assinada pelo primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Rui Barros, que atestava o trabalho que estávamos a fazer, foi tudo confiscado à ordem de um tenente dos para-comandos, das Forças Armadas Revolucionárias : do Povo (FARP).

pim E isto tudo porque o nosso camarada fo0 ij tógrafo, ao chegar à fortaleza da Amura, em Bissau, sacou de um fotómetro e pôs-se a ziguezaguear, com o aparelho V7 apontado para as velhas muralhas onde está instalado o Estado-Maior-General das FARP.

Já o tinha avisado que nem apontasse um dedo para a fortaleza. Mas nem tive tempo de lhe gritar “que raio estás a fazer?”. Foi tarde. À nossa V volta um grupo de soldados v apontava-nos as AK-47. A sen tença estava dada, sem espinhas, nem recurso-, prisão! Ainda tentámos explicar ao garboso tenente que estávamos só a medir a luz com o fotómetro, mas isso só aumentou a desconfiança. Medir a luz? Espiões, pela certa!

Depois da identificação no caderno escolar e mais umas horas de espera, a situação alterou-se. Sem dizer água vai, tiraram-nos do quarto escuro, ao mesmo tempo que um Mercedes 190, branco, entrou pela parada a alta velocidade. O condutor, à paisana, saiu do carro e, sem tirar os Ray-Ban, ‘bateu a pála’ e apresentou-se como “coronel da inteligência militar”. Acto contínuo, mandou-nos libertar. A razão deste volte-face só soube depois. 0 ministro da Presidência, ‘Nando’Vaz, tinha ligado para o meu telemóvel; quem atendeu foi o tenente, e ao expliv car-se levou uma valente ‘picada’ I e o Nando Vaz mandou avançar o 1 coronel da inteligência militar. __ I Em liberdade, fomos beber uma j cerveja ao Café Império, na praça que já teve aquele nome e,

2agora, é a Praça dos Heróis } da Pátria, quando vejo o garboso tenente do outro lado do largo. Chamei-o sem cerimónia, “anda cá!”. Veio, mas recusou a cerveja. “És muçulmano e balanta, então bebe um veludo ou um onjo”. Acedeu, espantado, e mirou atentamente o meu cachimbo. Perg untei-lhe, “fumas can huto?” (cachimbo em crioulo). Mais espantado, confirmou; e eu, pacificador, ofereci-lhe uma lata de tabaco Peterson, que trazia na mochila. Com a paz estabelecida entre o fumo dos cachimbos, a cena terminou, bem à portuguesa, com todos a tirar fotografias. Foi então que perguntei, “ki bu tchoma?” (como te cha mas?). “Eusébio”, respondeu. “Logo vi! Tinhas de ter esse nome!”, disse eu, sportingu ista ferrenho!

Manuel Soeiro

I preço da sinceridade

O jornalista João Carreira Bom criticou Pinto Balsemão e foi despedido do Expresso. Um episódio inesquecível passado há quase 30 anos.

Na segunda metade da década de 90 é de bom tom derramar fel sobre a programação dos canais privados de televisão, aquele registo novo e popular sem punhos de renda, os ^ programas inaudi- sp tos de cariz sentimental, erótico oumà.

kitsch que PortugalII

nunca antes viu. A SIC e a TVI (ainda se diz “a Quatro”,5M mas a marca já é TVI) são fustiga das por conservadores à esquerda e à direita, habituados à comunicação social antiga e composta.

João Carreira Bom, um jornalista apaixonado pela controvérsia que começou a carreira no matutino O Século e depois passou pela agência de notícias ANOP e pela primeira encarnação da revista Sábado, pela-se por uma boa polémica e junta-se aos protestos. Tinha-se afastado do jornalismo em 1989 para se dedicar a uma empresa de Relações Públicas e para fundar o ‘website’ Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, mas começara a escrever colunas badaladas no semanário Expresso, onde também fora repórter e editor. Os seus comentários mordazes à actualidade granjeiam-lhe seguidores e detractores. Lá está ele todos os sábados com a coluna ‘Afectos’ no espaço nobre que é o da última página da revista do Expresso. Um dia decide partir a loiça toda.

A18 de Outubro de 1997 assina um vitupério que tem por alvo o fundador e dono do Expresso e da SIC, Francisco Pinto Balsemão, dizendo que se este “não tivesse criado há cinco anos em Carnaxi de uma estação transformadora de telelixo, milhões de portugueses, fartos dos bons programas da antiga RTP, veriam agora as rasquices da televisão espanhola”. Prossegue o colunista: “O presidente da SIC fornece aos telespectadores portugueses os produtos abjectos de que eles necessitam”. E ainda: “Num país onde quase tudo se comercializa com manuais em línguas bárbaras, ele é um patriota: transmite telelixo em português”. E mais isto: “O rei D. Carlos queixava-se da ‘pio lhe ira’; o dr. Bal semão, entretendo-a, explora-a: ganha dinheiro com ela, e ainda temos ó’* % de lhe agradecer”.

1 0s pormenores do que se seguiu à crónica ¦ de Carreira Bom ainda f hoje são falados à boca pequena. Só o resultado não teve segredo: o texto sai e João Carreira Bom recebe guia de marcha. Dispensado, corrido, saneado. No dia seguinte já não era colaborador da revista. Assunto para dias a fio nos outros jornais, numa época em que as polém icas na imprensa são copiosamente noticiada s e comentadas pelos concorrentes. 0 Diário de Notícias de Mário Bettencourt Resendes contrata-o de imediato como colunista .

0 caso passa à história como exemplo de censura no período democrático, mas é improvável que tenha perturbado o seu protagonista. Calhando, até o fez sorrir.

Carreira Bom, nascido em 13 de Maio de 1944 na Aldeia Nova de São Bento, concelho de Serpa — a aldeia foi elevada a vila em 1988 —, cultivava uma verve truculenta, fruto da tarimba em O Século, onde se respirava uma saudável independência face à ditadura, e sempre esteve agarrado àquela sinceridade excessiva que marcou o carácter de muitos alentejanos. Vem a morrer a 31 de Janeiro de 2002 em Lisboa devido a um problema cardíaco súbito.

Hugo Siroco Pisang IIÍIÍÍ

mm laranja

Do velho bar, hoje pouco mais resta do que o grosso cortinado de veludo…

Esta semana tive umas questões para resolver na Baixa de Lisboa. Tratadas as questões, ainda houve tempo para um passeio. Os passos levaram-me às ruas sem trânsito do Bairro Alto. Uma zona da cidade com duas caras: a diurna e a noturna. Enquanto as noites são agitadas, barulhentas e com as artérias a rebentar pelas costuras, de tanta gente que ali vai para se divertir nos mais variados bares, os dias, esses, correm pachorrentos. Alguns turistas passeiam, tranquilos, olhando as fachadas e comprando cartões postais e outros ‘souvenirs’. Outros sentam-se nas esplanadas para almoçar. Pela tarde, estas esvaziam-se e só se vêem os empregados dos restaurantes a compor as mesas para a noite. Há gente que ali mora e aproveita para pendurar a roupa nos estendais, algo de colorido e único, quase só visto nos bairros antigos de Lisboa. Alguns cães pachorrentos espreguiça m-se pelas pedras da calçada, passa a camioneta pequenina de recolha de lixo.

Detenho-me em frente a uma fachada que me é familiar. Começo a recordar-me. É um bar. Mudou o nome. Há trinta anos, nos meus tempos de faculdade, chamava-se Tertúlia. Era ali que ia, com alguns amigos e camaradas de curso, às quintas-feiras à noite. Fazia-se silêncio para ouvir jazz, depois de se passar a porta e um grosso cortinado de veludo encarnado. Lá dentro, um piano era dos objetos mais característicos da casa. Bebia-se Pisang Ambon com laranja, Rusty Nails ou White Russian.

Mudam-se os tempos, o nome da casa mudou para Nova Tertúlia. Continua a ouvir-se jazz mas já são passadas outras sonoridades. Depende das noites. Que agora são regadas a cocktai ls modernos e elaborados, de todas as qualidades e fei tios. Resta o grosso cortina do encarnado de veludo e o piano.

Álvaro de Sousa

read more