OS CRIMES QUE “NUNCA EXISTIRAM”
OBRA Livro reúne os casos mais mediáticos dos últimos 40 anos, e realça a falta de meios e vontade política para combater -* corrupção e tráfico de influências. O autor, Eduardo Dâmaso, aponta “intencionalidade” na má redação das leis portuguesas
SOFIA PIÇARRA
A corrupção é o lubrificante das engrenagens entre os interesses privados e os poderes públicos.” A definição, de Euclides Dâmaso, antigo procurador-geral distrital de Coimbra, ilustra o peso de um fenómeno social que leva ao “enfraquecimento do Estado de Direito e facilita a atuação do crime organizado”, tão lesivo que a comunidade internacional acabará por classificá-lo como “crime contra a humanidade” . O jurista justifica assim a importância e atualidade do tema, que o livro ‘Corrupção: Breve história de um crime que nunca existiu’, do diretor da re vista’Sábado’ e diretor-adjunto da CMTV, Eduardo Dâmaso, analisa.
A obra foi apresentada ontem, e reúne os casos de corrupção mais relevantes do País nos últimos 40 anos, desde a investigação ao caso Face Oculta, Monte Branco ou Operação Marquês.
O jurista, que louvou a persis tênciae coragem do autor da obra, admite que das últimas
quatro décadas resultaram “investigações com poucas acusações e poucas acusações com poucas condenações.”
Para o assessor de investigação criminal Teófilo Santiago, Portugal “não é um País de corruptos, mas somos um País com muita corrupção”. O cronista do CM e histórico investigador da Polícia Judiciária para o crime económico admite que “as pessoas estão mais despertas para o fenómeno e as autoridades mais ativas, mas ainda falta a vontade política” para combater a corrupção. “Os meios se bem aplicados, fazem falta, mas se não houver coragem e vontade firme, não se faz nada.”
Eduardo Dâmaso partilha desta ideia e realça que faltam meios, mas também aponta a “intencionalidade na redação defeituosa das leis”, de que é exemplo a lei sobre o tráfico de influências, que só chegou ao Código Penal em 1995, mas que durante anos ninguém soube aplicar. O jornalista deixou ainda o elogio às polícias e ao Ministério Público, “heróis anónimos desta luta”, a quem também dedicou o livro.



