PS e PSD sem trunfos contra Rui Moreira

Número dois de Costa disponível, mas PS hesita. Aposta de Rio não garante que avança

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PS e PSD às avessas no Porto. Número dois de Costa disponível

Isabel Paulo

Com Moreira lançado, ao PSD restam dois ‘rioístas’ e ao PS um ‘costista’. Aparelhos hesitam

Rui Moreira ainda não formalizou a recandidatura à Câmara do Porto, mas já vai lançado: esta semana, forçou PS e PSD a mudarem a lei eleitoral, revendo os obstáculos que há oito meses lá tinham metido para dificultar a vida aos candidatos independentes, e conseguiu deixar à beira de um ataque de nervos os dois maiores partidos, com um jantar secreto (PSD) e um rumor (PS) que alimentaram a ideia de que ambos, à vez, quiseram juntar-se à sua recandidatura.

Vamos por partes. Na cidade conquistada pelos independentes, a oposição anda nervosa, antevendo mais quatro anos sabáticos. A corte a Moreira não é assumida, mas isso não impediu as tropas de Rui Rio de sondar o autarca, depois de Paulo Rangel (o preferido do PSD) ter declinado o convite para ir a votos. Sem trunfos, Salvador Malheiro e José Silvano jantaram há uma semana com Rui Moreira e Francisco Ramos, líder do Porto, o Nosso Movimento, mas a conversa azedou com as notícias sobre o objetivo do repasto: pelo PSD, Malheiro garantiu que a proposta de coligação no Porto partiu de Rui Moreira; do lado do autarca, diz-se que a proposta veio do PSD — e “em nome da comissão permanente”.

O resultado já é conhecido: sem acordo, foi Rui Rio que reagiu, disparando sobre o autarca… e sobre os seus apoiantes que acreditaram numa união:

“O que aconteceu esta semana serve também para algumas pessoas do PSD, dentro do Porto e fora dele, que me andaram a pressionar, aprenderem que tipo de pessoa é o dr. Rui Moreira. Alguém que mete um jantar privado em público e que mente sobre o que lá aconteceu não é confiável. É para essas pessoas aprenderem”, sublinhou Rio numa entrevista à Rádio Observador, acusando ainda Moreira “de ter uma acusação pesada e grave no Ministério Público, por ter confundido a gestão autárquica com a gestão do património da família”, uma referência ao processo Selminho.

Entre Feliz e Machado

A outra consequência é que o PSD está sem candidato a sete meses das eleições, tal como aconteceu há quatro anos, quando o partido recorreu ao desconhecido Álvaro Almeida e se ficou pelos 10%. Agora, se os sociais-democratas sabem que dificilmente farão pior figura do que em 2017, os nomes que sobram na cartola são os fiéis do líder, sem peso mediático. Rui Rio admitiu ontem um deles: Vladimiro Feliz, vice-presidente da autarquia na era Rio (“é absolutamente insuspeito, foi dos melhores vereadores que tive na câmara, foi vice-presidente, é absolutamente insuspeito”, disse ontem). Mas há um outro, apurou o Expresso: Alberto Machado, presidente da Junta de Freguesia de Paranhos (a única PSD), deputado e líder da distrital do Porto.

Ao Expresso, Vladimiro Feliz afirma ter ficado “surpreendido” ao saber que o seu nome estaria a ser equacionado. Diz que, apesar de falar “regularmente” com Rui Rio, nunca falaram sobre essa hipótese e nem garante disponibilidade: “Seria uma decisão muito difícil”, afirma o engenheiro mecânico de formação, alegando uma vida profissional “muito preenchida” como diretor de recursos humanos e tecnológicos de uma empresa ligada à inovação. “Teria de existir um conjunto de vontades e consensos para ser viável”, garante.

Os críticos inquietam-se: “No final do dia, vamos acabar com um candidato frágil e Moreira reeleito, a ocupar, de novo, o espaço que é do PSD”, aventa Paulo Cunha, autarca de Famalicão, conselheiro nacional do partido e defensor do apoio ao independente. Pedro Duarte e Luís Osório são outros sociais-democratas que lançaram um repto ao PSD/Porto para ponderar uma candidatura de centro-direita, em nome dos “superiores interesses da cidade”. Não haverá, porque o CDS segue com Moreira.

No 2 do PS disponível

Goradas as negociações da direita, as atenções centram-se no PS, que também tarda em escolher um nome. Sem disponíveis que permitam lutar por uma vitória (o ministro Matos Fernandes saiu de cena), os socialistas hesitam. Segundo apurou o Expresso, António Costa recebeu a disponibilidade do seu secretário-geral-adjunto, José Luís Carneiro. Mas uma fonte do partido alega que o líder socialista ainda não decidiu, com receio de “queimar” o homem que manda no Largo do Rato — que, de resto, não é acolhido com entusiasmo no aparelho. Numa sondagem interna, o ex-autarca de Baião terá ganho “em credibilidade”, com Manuel Pizarro (que já foi a votos contra Moreira, ficando nos 28%) a ganhar em “notoriedade” — Pizarro é vereador no Porto há sete anos e não excluiu uma recandidatura ainda.

Esta semana circulou no PS a informação de que o também eurodeputado veria com bons olhos o apoio ao ex-parceiro de coligação pós-eleitoral e ir em no 2 na lista — cenário que Pizarro diz ao Expresso estar fora de causa. Mas chegou para deixar o PS local nervoso: “Aquele disparate de ser no 2 é impossível equacionar depois do que aconteceu há quatro anos”, quando Moreira e Pizarro romperam negociações. “Espero que não tenha pernas para andar, o PS não pode nunca faltar ao debate”, afirma Fernando Jesus, um histórico deputado e dirigente do PS/ Porto. Para Jesus, o cenário é claro: “O quadro de fundo é este: Rui Moreira será virtual vencedor, quem for candidato tem poucas probabilidades de vitória, mas terá um percurso para daqui a quatro anos ter perspetiva de vitória. E só há um nome pela positiva, que é José Luís Carneiro: tem um discurso ao centro, é ouvido, é jovem, muito bem aceite na sociedade. Não vejo mais ninguém no partido.”

A “confusão” no PS terá terminado com António Costa a “mandar calar toda a gente e a dizer que não há acordo com Moreira até a estratégia para o Porto ser discutida pelos órgãos do partido”, diz uma fonte ouvida pelo Expresso. Costa, que tem a prerrogativa de avocar o processo no Porto e Lisboa, não se oporia a um apoio a Moreira, com quem se dá bem, mas só o faria se isso “não partisse o partido”. E isso é a única coisa certa: ao que o Expresso apurou, Francisco Assis e Pedro Nuno Santos estão contra. A decisão será tomada em abril/ maio, depois de novo estudo de opinião. Carneiro, Pizarro e Tiago Barbosa Ribeiro, líder da concelhia do Porto, são os nomes a escrutinar.

Com David Dinis e Liliana Valente

ipaulo@expresso.impresa.pt

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